HUMANISMO EM PORTUGUAL
Início: 1434 - Fernão Lopes é nomeado cronista-mor do Reino.
Término: 1527 - Francisco de Sá de Miranda inicia o Renascimento em Portugal.
Aspectos históricos:
Época conturbada da história portuguesa.
1) Implantação da dinastia de Avis (1383-1385) - revolução popular derruba a dinastia de Borgonha, e assume o novo rei, D. João I, da ordem de Avis. Fim da vassalagem dos reis de Portugal ao rei de Castela.
2) Fim das guerras da independência: consolidação da independência.
3) Desenvolvimento do comércio sobretudo do comércio marítimo.
4) Formação do império colonial português: conquistas na África e a descoberta do Brasil.
No plano da cultura e da literatura:
1) A língua portuguesa firma-se como língua independente. Lembre-se de que nos séculos anteriores falava-se o galego-português.
2) A língua literária escrita desenvolve-se, diferenciando-se da língua falada.
3) A prosa floresce, enquanto a poesia entra em declínio.
4) A corte torna-se o principal centro de produção cultural e literária graças ao fortalecimento da casa real.
5) Declínio das características medievais e prenúncio do Renascimento. Abandono progressivo da mentalidade teocêntrica.
Características do Humanismo
1) Florescimento da prosa; declínio da poesia.
b) Manifestações literárias:
Poesia palaciana
Prosa doutrinária
Historiografia
Teatro de Gil Vicente
Poesia Palaciana
1) Cancioneiro Geral, de Garcia Resende, 1516.
2) Ligada à vida social da corte.
3) Transição entre a tradição medieval e a tradição moderna.
4) Autonomia em relação à música:
métrica
declamadas em salões
surgem os livros, com a invenção da imprensa
os autores se chamam poeta, não são mais trovadores¨
lírica (contradições do amor - influência de Petrarca, poeta italiano)
Historiografia de Fernão Lopes
1418 - guarda-mor da Torre do Tombo (arquivo do Estado)
1434 - cronista-mor, encarregado de escrever oficialmente a história dos reis.
Das crônicas que escreve, só restam três. As demais desapareceram:
a) Crônica de D. Pedro
b) Crônica de D. Fernando
c) Crônica de D. João I (1ª e 2ª partes).
Sucessores de Fernão Lopes:
Gomes Eanes de Zurara - a partir de 1454.
Rui de Pina - a partir de 1497
Características da historiografia de Fernão Lopes
1) Não foi superado por nenhum sucessor.
2) Investigação crítica das fontes.
3) A figura do rei e do herói, centros da história.
4) Apresenta o painel de uma coletividade nacional portuguesa.
5) Considera as causas econômicas dos fatos.
6) Possuem o dinamismo das novelas de cavalaria.
Teatro de Gil Vicente
Mentalidade medieval - ambientado no início da Era Moderna, mas ainda reflete o pensamento medieval.
Características:
1) teatro alegórico - as barcas são alegorias da morte;
2) teatro de tipos - classe social, profissão, sexo, idade. Exemplos do Auto da Barca do Inferno:
3) Teatros de quadros: sucessão de cenas, chegando a um ponto culminante e desfecho.
4) Rupturas da linearidade do tempo e despreocupação com a verossimilhança: na farsa O Velho da Horta - pela manhã a mocinha procura o velho para comprar os temperos, no final do diálogo, o criado vem avisar-lhe que já é noite.
5) Teatro cômico e satírico. A maioria das peças são comédias de costumes, seguindo o lema latino: “Pelo riso corrigem-se os costumes”. Personagens caricaturais. Sua linguagem faz cócegas na platéia.
Gil Vicente
Com uma biografia das mais controvertidas, poucos fatos são tidos como certos na vida de Gil Vicente. Nascido por volta de 1465. Aproveitou-se do prestígio que a função de organizador das festas da corte lhe conferia para, em 1502, encenar sua primeira peça, o Monólogo do vaqueiro ou Auto da visitação, na câmara da rainha D. Maria, em comemoração ao nascimento de D. João III. Durante trinta e quatro anos Gil Vicente fez representar dezenas de peças. Em 1562, seu filho, Luís Vicente, publicou a Compilagem de toda as obras de Gil Vicente.
Características do teatro vicentino
Escrita em 1517, Auto da Barca do Inferno é das obras mais representativas do teatro vicentino. Como em tantas outras peças, nesta o autor aproveita a temática religiosa como pretexto para a crítica de costumes. Num braço de mar estão ancoradas duas barcas. A primeira, capitaneada pelo diabo, faz a travessia para o inferno; a segunda, chefiada por um anjo, vai para o céu. Uma a uma vão chegando as almas dos mortos - um fidalgo, um onzeneiro (agiota), um parvo (bobo), um sapateiro, um frade, levando sua amante, uma alcoviteira, um judeu, um corregedor (juiz), um procurador (advogado do Estado), um enforcado e quatro Cavaleiros de Cristo (cruzados) que morreram em poder dos mouros. Todos tentam evitar a barca do diabo. Mas apenas o parvo e os cruzados conseguem embarcar para o céu.
Ambientado no início da Era Moderna, o teatro vicentino ainda reflete o pensamento medieval por sua moral religiosa e sua concepção teocêntrica do mundo.
2. Teatro popular
Apesar dos elementos ideológicos inovadores que suas sátiras sociais contêm, Gil Vicente não se deixou influenciar pelas novidades estéticas introduzidas pelo Renascimento. Sua obra é a síntese das tradições medievais e populares.
“... o seu teatro não pode ser jamais entendido se analisado e concebido segundo os padrões de uma estética que não seja a estética do teatro popular”. (Segismundo Spina)”
Vale então fazer uma breve análise da obra de Gil Vicente à luz da estética do teatro popular medieval.
Teatro alegórico: representação de idéias abstratas com personagens, situações e coisas concretas. O Auto da Barca do Inferno, por exemplo, é uma peça alegórica. O cais e as barcas são a alegoria da morte; a barca do inferno é alegoria da condenação da alma; a barca do céu, a da salvação.
Teatro de tipos: as personagens de Gil Vicente são sempre típicas, isto é, não são indíviduos singulares nem possuem traços psicológicos complexos; pelo contrário, apenas reúnem os caracteres mais marcantes de sua classe social, de sua profissão, de seu sexo, de sua idade.
Teatro de quadros: em geral, as peças de Gil Vicente desenvolvem-se por uma sucessão de cenas relativamente independentes, sem formar propriamente um enredo, uma história que, depois de apresentada, se complica até um ponto culminante e um desfecho.
No Auto da Barca do Inferno temos uma introdução em que aparecem o diabo e seu companheiro preparando a barca e anunciando a vigem; com a chegada do fidalgo, inicia-se o primeiro quadro, e os outros se sucedem sempre com a mesma estrutura: chegada da personagem, diálogo com o diabo, tentativa de embarque para o céu e, se a personagem é recusada pelo anjo, retorno à busca do inferno.
Rupturas da linearidade do tempo e despreocupação com a verossimilhança: mesmo nas peças que possuem um enredo, a sucessão cronológica dos acontecimentos é freqüentemente inverossímil ou mesmo absurda.
Na farsa O velho e a horta, um velho hortelão apaixona-se por uma mocinha, pela manhã, o procura para comprar temperos. Ao final do primeiro diálogo, um criado vem avisar-lhe que já é noite e que sua mulher o espera para jantar.
Malsucedido em seus galanteios, o velho apaixonado contrata os serviços de uma alcoviteira, que lhe arranca dinheiro para comprar presentes e empreender a conquista. Numa de suas visitas, a alcoviteira é presa e açoitada. Desconsolado, o velho recebe a notícia do casamento da moça por quem se apaixonara. Tudo isso acontece numa sucessão ininterrupta, marcada apenas pela entrada e saída de personagens, e a única marcação de tempo, como se viu, é inverossímil. Teatro cômico e satírico: as peças de Gil Vicente, em sua maioria, são comédias de costumes, seguindo o lema latino ridendo castigat mores (pelo riso corrigem-se os costumes). O dramaturgo lança mão de inúmeros recursos eficientes para provocar o riso: personagens caricaturais; situações absurdas; desencontros imprevistos e ridículos. Mas é sobretudo o poder de sua linguagem que faz cócegas na platéia.
Término: 1527 - Francisco de Sá de Miranda inicia o Renascimento em Portugal.
Aspectos históricos:
Época conturbada da história portuguesa.
1) Implantação da dinastia de Avis (1383-1385) - revolução popular derruba a dinastia de Borgonha, e assume o novo rei, D. João I, da ordem de Avis. Fim da vassalagem dos reis de Portugal ao rei de Castela.
2) Fim das guerras da independência: consolidação da independência.
3) Desenvolvimento do comércio sobretudo do comércio marítimo.
4) Formação do império colonial português: conquistas na África e a descoberta do Brasil.
No plano da cultura e da literatura:
1) A língua portuguesa firma-se como língua independente. Lembre-se de que nos séculos anteriores falava-se o galego-português.
2) A língua literária escrita desenvolve-se, diferenciando-se da língua falada.
3) A prosa floresce, enquanto a poesia entra em declínio.
4) A corte torna-se o principal centro de produção cultural e literária graças ao fortalecimento da casa real.
5) Declínio das características medievais e prenúncio do Renascimento. Abandono progressivo da mentalidade teocêntrica.
Características do Humanismo
1) Florescimento da prosa; declínio da poesia.
b) Manifestações literárias:
Poesia palaciana
Prosa doutrinária
Historiografia
Teatro de Gil Vicente
Poesia Palaciana
1) Cancioneiro Geral, de Garcia Resende, 1516.
2) Ligada à vida social da corte.
3) Transição entre a tradição medieval e a tradição moderna.
4) Autonomia em relação à música:
métrica
declamadas em salões
surgem os livros, com a invenção da imprensa
os autores se chamam poeta, não são mais trovadores¨
lírica (contradições do amor - influência de Petrarca, poeta italiano)
Historiografia de Fernão Lopes
1418 - guarda-mor da Torre do Tombo (arquivo do Estado)
1434 - cronista-mor, encarregado de escrever oficialmente a história dos reis.
Das crônicas que escreve, só restam três. As demais desapareceram:
a) Crônica de D. Pedro
b) Crônica de D. Fernando
c) Crônica de D. João I (1ª e 2ª partes).
Sucessores de Fernão Lopes:
Gomes Eanes de Zurara - a partir de 1454.
Rui de Pina - a partir de 1497
Características da historiografia de Fernão Lopes
1) Não foi superado por nenhum sucessor.
2) Investigação crítica das fontes.
3) A figura do rei e do herói, centros da história.
4) Apresenta o painel de uma coletividade nacional portuguesa.
5) Considera as causas econômicas dos fatos.
6) Possuem o dinamismo das novelas de cavalaria.
Teatro de Gil Vicente
Mentalidade medieval - ambientado no início da Era Moderna, mas ainda reflete o pensamento medieval.
Características:
1) teatro alegórico - as barcas são alegorias da morte;
2) teatro de tipos - classe social, profissão, sexo, idade. Exemplos do Auto da Barca do Inferno:
3) Teatros de quadros: sucessão de cenas, chegando a um ponto culminante e desfecho.
4) Rupturas da linearidade do tempo e despreocupação com a verossimilhança: na farsa O Velho da Horta - pela manhã a mocinha procura o velho para comprar os temperos, no final do diálogo, o criado vem avisar-lhe que já é noite.
5) Teatro cômico e satírico. A maioria das peças são comédias de costumes, seguindo o lema latino: “Pelo riso corrigem-se os costumes”. Personagens caricaturais. Sua linguagem faz cócegas na platéia.
Gil Vicente
Com uma biografia das mais controvertidas, poucos fatos são tidos como certos na vida de Gil Vicente. Nascido por volta de 1465. Aproveitou-se do prestígio que a função de organizador das festas da corte lhe conferia para, em 1502, encenar sua primeira peça, o Monólogo do vaqueiro ou Auto da visitação, na câmara da rainha D. Maria, em comemoração ao nascimento de D. João III. Durante trinta e quatro anos Gil Vicente fez representar dezenas de peças. Em 1562, seu filho, Luís Vicente, publicou a Compilagem de toda as obras de Gil Vicente.
Características do teatro vicentino
Escrita em 1517, Auto da Barca do Inferno é das obras mais representativas do teatro vicentino. Como em tantas outras peças, nesta o autor aproveita a temática religiosa como pretexto para a crítica de costumes. Num braço de mar estão ancoradas duas barcas. A primeira, capitaneada pelo diabo, faz a travessia para o inferno; a segunda, chefiada por um anjo, vai para o céu. Uma a uma vão chegando as almas dos mortos - um fidalgo, um onzeneiro (agiota), um parvo (bobo), um sapateiro, um frade, levando sua amante, uma alcoviteira, um judeu, um corregedor (juiz), um procurador (advogado do Estado), um enforcado e quatro Cavaleiros de Cristo (cruzados) que morreram em poder dos mouros. Todos tentam evitar a barca do diabo. Mas apenas o parvo e os cruzados conseguem embarcar para o céu.
Ambientado no início da Era Moderna, o teatro vicentino ainda reflete o pensamento medieval por sua moral religiosa e sua concepção teocêntrica do mundo.
2. Teatro popular
Apesar dos elementos ideológicos inovadores que suas sátiras sociais contêm, Gil Vicente não se deixou influenciar pelas novidades estéticas introduzidas pelo Renascimento. Sua obra é a síntese das tradições medievais e populares.
“... o seu teatro não pode ser jamais entendido se analisado e concebido segundo os padrões de uma estética que não seja a estética do teatro popular”. (Segismundo Spina)”
Vale então fazer uma breve análise da obra de Gil Vicente à luz da estética do teatro popular medieval.
Teatro alegórico: representação de idéias abstratas com personagens, situações e coisas concretas. O Auto da Barca do Inferno, por exemplo, é uma peça alegórica. O cais e as barcas são a alegoria da morte; a barca do inferno é alegoria da condenação da alma; a barca do céu, a da salvação.
Teatro de tipos: as personagens de Gil Vicente são sempre típicas, isto é, não são indíviduos singulares nem possuem traços psicológicos complexos; pelo contrário, apenas reúnem os caracteres mais marcantes de sua classe social, de sua profissão, de seu sexo, de sua idade.
Teatro de quadros: em geral, as peças de Gil Vicente desenvolvem-se por uma sucessão de cenas relativamente independentes, sem formar propriamente um enredo, uma história que, depois de apresentada, se complica até um ponto culminante e um desfecho.
No Auto da Barca do Inferno temos uma introdução em que aparecem o diabo e seu companheiro preparando a barca e anunciando a vigem; com a chegada do fidalgo, inicia-se o primeiro quadro, e os outros se sucedem sempre com a mesma estrutura: chegada da personagem, diálogo com o diabo, tentativa de embarque para o céu e, se a personagem é recusada pelo anjo, retorno à busca do inferno.
Rupturas da linearidade do tempo e despreocupação com a verossimilhança: mesmo nas peças que possuem um enredo, a sucessão cronológica dos acontecimentos é freqüentemente inverossímil ou mesmo absurda.
Na farsa O velho e a horta, um velho hortelão apaixona-se por uma mocinha, pela manhã, o procura para comprar temperos. Ao final do primeiro diálogo, um criado vem avisar-lhe que já é noite e que sua mulher o espera para jantar.
Malsucedido em seus galanteios, o velho apaixonado contrata os serviços de uma alcoviteira, que lhe arranca dinheiro para comprar presentes e empreender a conquista. Numa de suas visitas, a alcoviteira é presa e açoitada. Desconsolado, o velho recebe a notícia do casamento da moça por quem se apaixonara. Tudo isso acontece numa sucessão ininterrupta, marcada apenas pela entrada e saída de personagens, e a única marcação de tempo, como se viu, é inverossímil. Teatro cômico e satírico: as peças de Gil Vicente, em sua maioria, são comédias de costumes, seguindo o lema latino ridendo castigat mores (pelo riso corrigem-se os costumes). O dramaturgo lança mão de inúmeros recursos eficientes para provocar o riso: personagens caricaturais; situações absurdas; desencontros imprevistos e ridículos. Mas é sobretudo o poder de sua linguagem que faz cócegas na platéia.

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