LITERATURA VIRTU@L

Monday, May 08, 2006

FIGURAS DE LINGUAGEM

Assíndeto
Ocorre assíndeto quando orações ou palavras que deveriam vir ligadas por conjunções coordenativas aparecem justapostas ou separadas por vírgulas
“Fere, mata, derriba denodado...” (Camões)
“Não nos movemos, as mãos é que se estenderam pouco a pouco, todas quatro, pegando-se, apartando-se, fundindo-se.”
(Machado de Assis)
Elipse
Ocorre elipse quando omitimos um termo ou oração que facilmente podemos identificar ou subentender no contexto. Pode ocorrer na supressão de pronomes, conjunções, preposições ou verbos.
“Veio sem pinturas, em vestido leve, sandálias coloridas.” (Rubem Braga)
Elipse do pronome ela (Ela veio) e da preposição de (de sandálias).
Zeugma
Ocorre zeugma quando um termo já expresso na frase é suprimido, ficando subentendida sua repetição.
“Foi saqueada a vila, e assassinados os partidários dos Filipes.”
(Camilo Castelo Branco)
Zeugma do verbo: e foram assassinados...”
Anáfora
Ocorre anáfora quando há repetição intencional de palavras no início de um período, frase ou verso.
“Grande no pensamento, grande na ação, grande na glória, grande no infortúnio, ele morreu desconhecido e só.” (Rocha Lima)
Pleonasmo
Ocorre pleonasmo quando há repetição da mesma idéia, isto é, redundância de significado.
a) Pleonasmo literário
É o uso de palavras redundantes para reforçar uma idéia, tanto do ponto de vista semântico quanto do ponto de vista sintático. É um recurso estilístico que enriquece a expressão, dando ênfase à mensagem.
“Iam vinte anos desde aquele dia
Quando com os olhos eu quis ver de perto
Quanto em visão com os da saudade via.”
(Alberto de Oliveira)
“Morrerás morte vil na mão de um forte.”
(Gonçalves Dias)
b) Pleonasmo vicioso
É o desdobramento de idéias que lá estavam implícitas em palavras anteriormente expresas. Pleonasmos viciosos devem ser evitados, pois não têm valor de reforço de uma idéia, sendo apenas fruto do descobrimento do sentido real das palavras. Exemplos:
subir para cima hemorragia de sangue
entrar para dentro monopólio exclusivo
repetir de novo breve alocução
ouvir com os ouvidos principal protagonista
Polissíndeto
Ocorre polissíndeto quando há repetição enfática de uma conjunção coordenativa mais vezes do que exige a norma gramatical (geralmente a conjunção e ).
“Vão chegando as burguesinhas pobres,
e as criadas das burguesinhas ricas
e as mulheres do povo, e as lavadeiras da redondeza.”
(Manuel Bandeira)
Anástrofe
Ocorre anástrofe quando há uma simples inversão de palavras vizinhas (determinante x determinado).
“Tão leve estou que foi já nem sombra tenho.” (Mário Quintana)
Estou tão leve....
Hipérbato
Ocorre hipérbato quando há uma inversão complexa de membros da frase.
“Passeiam, à tarde, as belas na Avenida.”
(Carlos Drummond de Andrade)
As belas passeiam na Avenida à tarde.
Sínquise
Ocorre sínquise quando há uma inversão violenta de distantes partes da frase. É um hipérbato exagerado.
“A grita se alevanta ao Céu, da gente.”(Camões)
A grita da gente se alevanta ao Céu.
Hipálage
Ocorre hipálage quando há inversão da posição do adjetivo (uma qualidade que pertence a um objeto é atribuída a outro, na mesma frase)
“... em cada olho um grito castanho de ódio.” (Dálton Trevisan)
...em cada olho castanho um grito de ódio..
Anacoluto
Ocorre anacoluto quando há interrupção do plano sintático com que se inicia a frase, alterando-lhe a seqüência lógica. A construção do período deixa um ou mais termos desprendidos dos demais e sem função sintática definida.
“Essas empregadas de hoje, não se pode confiar nelas” (Alcântara Machado)
“Umas carabinas que guardava atrás do guarda-roupa, a gente brincava com elas de tão imprestáveis.”
(José Lins do Rego)
Silepse
Ocorre silepse quando a concordância não é feita com as palavras, mas com a idéia a elas associada.
a) Silepse de gênero
Ocorre quando há discordância entre os gêneros gramaticais (feminino ou masculino)
“O animal é tão bacana
mas também não é nenhum banana.”
(Enriques, Bardotti e Chico Buarque)
b) Silepse de número
Ocorre quando há discordância envolvendo o número gramatical (singular ou plural).
“Esta gente está furiosa e com medo; por conseqüência, capazes de tudo.” (Garret)
c) Silepse de pessoa
Ocorre quando há discordância entre o sujeito expresso e a pessoa verbal.
“A gente não sabemos escolher presidente
A gente não sabemos tomar conta da gente.”
(Roger Rocha Moreira)
Figuras de pensamento
As figuras de pensamento são recursos de linguagem que se referem ao significado das palavras, ao seu aspecto semântico.
Antítese
Ocorre antítese quando há aproximação de palavras ou expressões de sentidos opostos.
“Amigos e inimigos estão, amiúde, em posições trocadas. Uns nos querem mal, e fazem-nos bem. Outros nos almejam o bem, e nos trazem o mal.” (Rui Barbosa)
“Onde queres prazer sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido sou herói” (Caetano Veloso)
Apóstrofe
Ocorre apóstrofe quando há invocação de uma pessoa ou algo, real ou imaginário, que pode estar presente ou ausente. Corresponde ao vocativo na análise sintática e utilizada para dar ênfase à expressão.
“Deus! ó Deus! onde estás, que não respondes?”
(Castro Alves)
“Tende piedade, Senhor, de todas as mulheres
Que ninguém mais merece tanto amor e amizade”
(Vinícius de Morais)
Paradoxo
Ocorre paradoxo não apenas na aproximação de palavras de sentido oposto, mas de idéias que se contradizem. É uma verdade enunciada com aparência de mentira.
“O mito é o nada que é tudo.” (Fernando Pessoa)
“Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.” (Camões)
Eufemismo
Ocorre eufemismo quando uma palavra ou expressão é empregada para atenuar uma verdade tida como penosa, desagradável ou chocante.
Gradação
Ocorre gradação quando há uma seqüência de palavras que intensificam uma mesma idéia.
“Dissecou-a, a tal ponto, e com tal arte, que ela,
Rota, baça, nojenta, vil
Sucumbiu....” (Raimundo Correia)
Hipérbole
Ocorre hipérbole quando há exagero de uma idéia, a fim de proporcionar uma imagem emocionante e de impacto.
“Rios te correrão dos olhos, se chorares!”
(Olavo Bilac)
Ironia
Ocorre ironia quando, pelo contexto, pela entonação, pela contradição de termos, sugere-se o contrário do que as palavras ou orações parecem exprimir. A intenção é depreciativa ou sarcástica.
“As moças entrebeijam-se porque não podem morder-se umas às outras. O beijo deles é a evolução da dentada da pré-avó.” (Monteiro Lobato)
“Moça linda, bem tratada, três séculos de família, burra como uma porta: um amor.” ( Mário de Andrade)
Prosopopéia
Ocorre prosopopéia quando se atribui movimento, ação, fala, sentimento, enfim, caracteres próprios de seres animados a seres inanimados ou imaginários.
Também a atribuição de características humanas a seres animados constitui prosopopéia, como este exemplo de Mário Quintana: “O peixinho (...) silencioso e levemente melancólico....”
“... a Lua
tal qual a dona do bordel
pedia a cada estela fria
um brilho de aluguel” (João Bosco & Aldir Blanc)
“... os rios vão carregando as queixas do caminho.”
( Raul Bopp)
“Um frio inteligente (...) percorria o jardim....”
(Clarice Lispector)
Perífrase/Antonomásia
Ocorre perífrase quando se cria um torneio de palavras para expressar algum objeto, acidente geográfico, indivíduo ou situação que não se quer nomear.
Na linguagem coloquial, antonomásia/perífrase é o mesmo que apelido, alcunha ou cognome, cuja origem é um aposto (descritivo, especificativo) do nome próprio.
“Cidade maravilhosa
Cheia de encantos mil
Cidade maravilhosa
Coração do meu Brasil.” (André Filho)
(Rio de Janeiro)
Figuras de palavra
As figuras de palavras consistem no emprego de um termo com sentido diferente daquele convencionalmente empregado, a fim de se conseguir um efeito mais expressivo na comunicação.
Comparação
Ocorre comparação quando se estabelece aproximação entre dois elementos que se identificam, ligados por conectivos comparativos explícitos - feito, assim como, tal, como, tal qual, tal como, qual, que nem - alguns verbos - parecer, assemelhar-se e outros.
“Amou daquela vez como se fosse máquina.
Beijou sua mulher como se fosse lógico.
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas.
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro.
E flutuou no ar como se fosse um príncipe.
E se acabou no chão feito um pacote bêbado.”
(Chico Buarque)
Metáfora
Ocorre metáfora quando um termo substitui outro através de uma relação de semelhança resultante da subjetividade de quem a cria. A metáfora também pode ser entendida como uma comparação abreviada, em que o conectivo não está expresso, mas subentendido.
“O tempo é uma cadeira ao sol, e nada mais.”
(Carlos Drummond de Andrade)
Metonímia
Ocorre metonímia quando há substituição de uma palavra por outra, havendo entre ambas grau de semelhança, relação, proximidade de sentido, ou implicação mútua. Tal substituição realiza-se de inúmeros modos:
O continente pelo conteúdo e vice-versa
Antes de sair, tomamos um cálice de licor.
O conteúdo de um cálice.
A âncara pesada do sal feria.
(O mar.)
A causa pelo efeito e vice-versa
“E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento.”(Vinícius de Morais)
(Com trabalho)
Sou alérgico a cigarro.
(A fumaça.)
O lugar de origem ou de produção pelo produto
Comprei uma garrafa do legítimo porto.
(O vinho da cidade do Porto.)
Ofereceu-me um havana.
(Um charuto produzido em Havana.)
autor pela obra
Ela aprecia ler Jorge Amado.
(A obra de Jorge Amado.)
Compre um Portinari.
(Um quadro do pintor Cândido Portinari.)
O abstrato pelo concreto e vice-versa:
Não devemos contar com o seu coração.
(Sentimento, sensibilidade)
A velhice deve ser respeitada.
(As pessoas idosas.)
O símbolo pela coisa simbolizada:
A coroa foi disputada pelos revolucionários.
(O poder.)
Não te afastes da cruz.
(O cristianismo.)
A matéria pelo produto e vice-versa:
Lento, o bronze soa.
(O sino.)
Joguei duas pratas no chapéu do mendigo.
(Moedas de prata.)
o inventor pelo invento:
Edson ilumina o mundo.
(A energia elétrica.)
A coisa pelo lugar:
Vou à Prefeitura.
(Ao edifício da Prefeitura.)
O instrumento pela pessoa que o utiliza:
Ele é um bom garfo.
( Guloso, glutão)
Sinédoque
Ocorre sinédoque quando há substituição de um tempo por outro, havendo ampliação ou redução do sentido usual da palavra. Encontramos sinédoque nos seguintes casos:
O todo pela parte e vice-versa:
“A cidade inteira viu assombrada, de queixo caído, o pistoleiro sumir de ladrão, fugindo nos cascos de seu cavalo.”
(José Cândido de Carvalho)
( O povo. Parte das patas.)
O singular pelo plural e vice-versa:
O paulista é tímido; o carioca, atrevido.
(Todos os paulistas. Todos os cariocas.)
o indivíduo pela espécie (nome próprio pelo nome comum):
Para os artistas ele foi um mecenas.
(Protetor)
Este homem é um harpagão.
(Avarento)
Catacrese
A catacrese é um tipo especial de metáfora, “é uma espécie de metáfora desgastada, em que já não se sente nenhum vestígio de inovação, de criação individual e pitoresca. É a metáfora tornada hábito lingüístico, já fora do âmbito estilístico” (Othon Moacir Garcia).
Exemplos de catacrese:
folhas de livro pé de mesa
dente de alho braço do rio
céu da boa leito do rio
mão de direção barriga da perna
asas do nariz embarca no trem
língua de fogo miolo da questão. .
Alegoria
A alegoria é uma acumulação de metáforas referindo-se ao mesmo objeto; é uma figura poética que consiste em expressar uma situação global por meio de outra que a evoque e intensifique o seu significado. Na alegoria, todas as palavras estão transladadas para um plano que não lhes é comum e oferecem dois sentidos completos e perfeitos - um referencial e outro metafórico.
“A vida é uma ópera, é uma grande ópera. O tenor e o barítono lutam pelo soprano, em presença do baixo e dos comprimários, quando não são o soprano e o contralto que lutam pelo tenor, em presença do mesmo baixo e dos mesmos comprimários. Há coros numerosos, muitos bailados, e a orquestra é excelente...”
(Machado de Assis)
Figuras de harmonia ( sonoridade)
Chamam-se figuras de som ou de harmonia os efeitos produzidos na linguagem quando imitar sons produzidos por coisas ou seres.
Aliteração
Ocorre aliteração quando há repetição da mesma consoante ou de consoantes similares, geralmente em posição inicial da palavra.
“Toda gente homenageia Januária na janela.” (Chico Buarque)
“Quando essa preta começa a tratar do cabelo
é de se olhar toda a trama da trança e transa do cabelo.”
(Caetano Veloso)
“Chove chuva choverando.” (Oswald de Andrade)
Assonância
Ocorre assonância quando há repetição da mesma vogal ao longo de um verso ou poema.
“Sou Ana, da cama
da cana, fulana, bacana
Sou Ana de Amsterdam.” ( Chico Buarque)
A ponte aponta
e se desponta.
A tontinha tenta
limpar a tinta
ponto por ponto
e pinta por pinta...” (Cecília Meireles)
Paronomásia
Ocorre paronomásia quando há reprodução de sons semelhantes em palavras de significações diversas.
“Berro pelo aterro pelo desterro
berro por seu berro pelo seu erro
quero que você ganhe que você me apanhe
sou o seu bezerro gritando mamãe.” (Caetano Veloso)
Onomatopéia
Ocorre onomatopéia quando uma palavra o conjunto de palavras imita um ruído ou som.
“O silêncio fresco despenca das árvores.
Veio de longe,das planícies altas,
Dos cerrados onde o guaxe passe rápido...
Vvvvvvv... passou.”(Mário de Andrade)
“Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r eterno.”
(Fernando Pessoa)
Onomatopéia é um vocábulo de grande valor expressivo. Quando se trata de emissões sonoras humanas (espanto, alegria, dor etc), os sons onomatopéicos obedecem aos modelos fonológicos de uma língua, embora atinjam, de certa forma, a universalidade, já que estão sempre associados de imagens. Observe os modelos:
Emoções humanas
Iau! = dor
Uau! = alegria
Glup! = espanto
Amph! = desagrado
Ah! Ah! Ah! = gargalhada
Atos humanos
Aaargh = força
Uff = esforço físico

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