LITERATURA VIRTU@L

Thursday, June 08, 2006

OS LUSÍADAS

Três planos narrativos:
1. a história da viagem de Vasco da Gama e seus marinheiros à Índia: ação central do poema, o feito heróico celebrado pelo poeta;
2. a história de Portugal, chegando até a época da viagem e antecipando acontecimentos posteriores a ela: imbrica-se em 1, Vasco da Gama relata ao rei (Melinde) do lugar, uma região da costa oriental da África, a história de seu país até o início da Viagem e antecipa alguns fatos que viria acontecer depois da viagem;
3. a história dos deuses que, como forças do destino, tramam e destramam a sorte daqueles bravos portugueses que enfrentam perigos e inimigos desconhecidos para ampliar as fronteiras de seu reino e de sua religião: corresponde à presença da mitologia greco-latina no poema.

Função dos deuses: para o poeta, o mais elevado objetivo do corajoso empreendimento português era alargar as fronteiras da fé católica e ampliar o poderio da civilização da Europa, representada pelo Império Português. Os lusitanos estariam a serviço da Religião e do Rei de Portugal. Portanto, é contraditório a mitologia pagã presente no texto. Porém, os deuses são centrais e estruturais, ou seja, sem eles a ação do poema perderia a sua mola e o elenco de personagens ficaria sem suas melhores figuras.

Ideologia: outra contradição. Camões justifica a guerra que o povo português deve empreender, mas é humanista, que, por princípios, se opunha à guerra. No entanto, no contexto do poema, o poeta deixa explícito o objetivo de estender os limites do Cristianismo e da civilização ocidental, sob o domínio do rei de Portugal. Um triplo objetivo: religioso, humanístico e nacional.

Monumento lingüístico e literário:
· versos decassílabos clássico: medida nova. Heróico (os acentos incidem na sexta e décimas sílabas).
As-ar-mas-e os-ba-RÕES-a-ssi-na-LA-dos
· estrofe é oitava rima ou oitava real, conjunto de oito versos em que os seis primeiros têm duas rimas (A e B), dispostas alternadamente (ABABAB), e os dois últimos são emparelhados por uma terceira rima (C).
· As sonoridades são valorizadas pela incidências dos acentos que ressaltam rimas internas.
No mais interno FUNDo das FUNDas
Cavernas altas, ONDE o mar se escONDE.
Síntese da narrativa:
Canto I: depois de anunciar o assunto do poema (proposição), pedir inspiração às ninfas do rio Tejo (invocação) e dedicar o poema ao rei, D.Sebastião (dedicatória), o poeta inicia a narrativa in media res (expressão latina que quer dizer “no meio do assunto”), quando os portugueses já estão avançados na viagem, tendo passado o Cabo das Tormentas. Primeiro concílio dos deuses. Baco é contrário aos portugueses. Vênus e Marte defendem os portugueses.

Canto II: Armadilhas de Baco em Moçamba. Intervenção de Vênus. Chegada em Melinde.

Canto III: Vasco da Gama relata ao rei de Melinde a história portuguesa desde sua fundação. Episódio de Inês de Castro.

Canto IV: prossegue a narrativa até o momento em que D. Manuel encarrega Vasco da Gama de organizar uma expedição para o descobrimento marítimo para a Índia. Episódio do Velho de Restelo.

Canto V: destaca-se os relatos de alguns aspectos notáveis da viagem. Episódio do Gigante Adamastor: trecho do Cabo das Tormentas, mas também um ser palpitante de desejo amoroso, apaixonado pela ninfa Tétis, que o rejeita e o humilha. Exprime a força do amor cósmico, que move o mundo. Encerra-se a metade da obra, louvando a poesia e lamentando o descaso de seus compatriotas por ela.

Canto VI: os portugueses seguem viagem. Episódio dos Doze de Inglaterra. Segundo concílio dos deuses. Chegada a Calecut, na Índia.

Canto VII: o poeta cumprimenta os portugueses por seu grande feito e contrapõe aos demais povos da Europa, que se guerreavam uns aos outros. Relato do contato com a terra (descrição da Índia). Os portugueses são recebidos pelo catual (O samorim).

Canto VIII: Paulo da Gama, irmão de Vasco, apresenta uma galeria de grandes heróis portugueses. Consideração sobre o poder corruptor do dinheiro.

Canto IX: partida de volta dos portugueses. Parada na Ilha Namorada ou Ilha dos Amores, ilha paradisíaca habitada por deusas e ninfas. Caráter simbólico da Ilha dos Amores, que representa, na forma de elevação ao mundo divino, a imortalidade que os portugueses tinham conquistado, graças à fama de seus grandes feitos.Canto X: banquete de Tétis aos portugueses, onde as ninfas cantam profecias sobre os feitos de Portugal posteriores à viagem de Vasco da Gama. Tétis mostra a Vasco a máquina do mundo, algo como uma miniatura do universo que simboliza a conquista do conhecimento. Aponta as regiões do mundo onde os portugueses obteriam grandes glórias. Camões encerra o poema (epílogo) lamentando o estado de decadência do país e conclamando novamente o rei a uma grande empresa de salvação nacional.

Monday, May 08, 2006

FIGURAS DE LINGUAGEM

Assíndeto
Ocorre assíndeto quando orações ou palavras que deveriam vir ligadas por conjunções coordenativas aparecem justapostas ou separadas por vírgulas
“Fere, mata, derriba denodado...” (Camões)
“Não nos movemos, as mãos é que se estenderam pouco a pouco, todas quatro, pegando-se, apartando-se, fundindo-se.”
(Machado de Assis)
Elipse
Ocorre elipse quando omitimos um termo ou oração que facilmente podemos identificar ou subentender no contexto. Pode ocorrer na supressão de pronomes, conjunções, preposições ou verbos.
“Veio sem pinturas, em vestido leve, sandálias coloridas.” (Rubem Braga)
Elipse do pronome ela (Ela veio) e da preposição de (de sandálias).
Zeugma
Ocorre zeugma quando um termo já expresso na frase é suprimido, ficando subentendida sua repetição.
“Foi saqueada a vila, e assassinados os partidários dos Filipes.”
(Camilo Castelo Branco)
Zeugma do verbo: e foram assassinados...”
Anáfora
Ocorre anáfora quando há repetição intencional de palavras no início de um período, frase ou verso.
“Grande no pensamento, grande na ação, grande na glória, grande no infortúnio, ele morreu desconhecido e só.” (Rocha Lima)
Pleonasmo
Ocorre pleonasmo quando há repetição da mesma idéia, isto é, redundância de significado.
a) Pleonasmo literário
É o uso de palavras redundantes para reforçar uma idéia, tanto do ponto de vista semântico quanto do ponto de vista sintático. É um recurso estilístico que enriquece a expressão, dando ênfase à mensagem.
“Iam vinte anos desde aquele dia
Quando com os olhos eu quis ver de perto
Quanto em visão com os da saudade via.”
(Alberto de Oliveira)
“Morrerás morte vil na mão de um forte.”
(Gonçalves Dias)
b) Pleonasmo vicioso
É o desdobramento de idéias que lá estavam implícitas em palavras anteriormente expresas. Pleonasmos viciosos devem ser evitados, pois não têm valor de reforço de uma idéia, sendo apenas fruto do descobrimento do sentido real das palavras. Exemplos:
subir para cima hemorragia de sangue
entrar para dentro monopólio exclusivo
repetir de novo breve alocução
ouvir com os ouvidos principal protagonista
Polissíndeto
Ocorre polissíndeto quando há repetição enfática de uma conjunção coordenativa mais vezes do que exige a norma gramatical (geralmente a conjunção e ).
“Vão chegando as burguesinhas pobres,
e as criadas das burguesinhas ricas
e as mulheres do povo, e as lavadeiras da redondeza.”
(Manuel Bandeira)
Anástrofe
Ocorre anástrofe quando há uma simples inversão de palavras vizinhas (determinante x determinado).
“Tão leve estou que foi já nem sombra tenho.” (Mário Quintana)
Estou tão leve....
Hipérbato
Ocorre hipérbato quando há uma inversão complexa de membros da frase.
“Passeiam, à tarde, as belas na Avenida.”
(Carlos Drummond de Andrade)
As belas passeiam na Avenida à tarde.
Sínquise
Ocorre sínquise quando há uma inversão violenta de distantes partes da frase. É um hipérbato exagerado.
“A grita se alevanta ao Céu, da gente.”(Camões)
A grita da gente se alevanta ao Céu.
Hipálage
Ocorre hipálage quando há inversão da posição do adjetivo (uma qualidade que pertence a um objeto é atribuída a outro, na mesma frase)
“... em cada olho um grito castanho de ódio.” (Dálton Trevisan)
...em cada olho castanho um grito de ódio..
Anacoluto
Ocorre anacoluto quando há interrupção do plano sintático com que se inicia a frase, alterando-lhe a seqüência lógica. A construção do período deixa um ou mais termos desprendidos dos demais e sem função sintática definida.
“Essas empregadas de hoje, não se pode confiar nelas” (Alcântara Machado)
“Umas carabinas que guardava atrás do guarda-roupa, a gente brincava com elas de tão imprestáveis.”
(José Lins do Rego)
Silepse
Ocorre silepse quando a concordância não é feita com as palavras, mas com a idéia a elas associada.
a) Silepse de gênero
Ocorre quando há discordância entre os gêneros gramaticais (feminino ou masculino)
“O animal é tão bacana
mas também não é nenhum banana.”
(Enriques, Bardotti e Chico Buarque)
b) Silepse de número
Ocorre quando há discordância envolvendo o número gramatical (singular ou plural).
“Esta gente está furiosa e com medo; por conseqüência, capazes de tudo.” (Garret)
c) Silepse de pessoa
Ocorre quando há discordância entre o sujeito expresso e a pessoa verbal.
“A gente não sabemos escolher presidente
A gente não sabemos tomar conta da gente.”
(Roger Rocha Moreira)
Figuras de pensamento
As figuras de pensamento são recursos de linguagem que se referem ao significado das palavras, ao seu aspecto semântico.
Antítese
Ocorre antítese quando há aproximação de palavras ou expressões de sentidos opostos.
“Amigos e inimigos estão, amiúde, em posições trocadas. Uns nos querem mal, e fazem-nos bem. Outros nos almejam o bem, e nos trazem o mal.” (Rui Barbosa)
“Onde queres prazer sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido sou herói” (Caetano Veloso)
Apóstrofe
Ocorre apóstrofe quando há invocação de uma pessoa ou algo, real ou imaginário, que pode estar presente ou ausente. Corresponde ao vocativo na análise sintática e utilizada para dar ênfase à expressão.
“Deus! ó Deus! onde estás, que não respondes?”
(Castro Alves)
“Tende piedade, Senhor, de todas as mulheres
Que ninguém mais merece tanto amor e amizade”
(Vinícius de Morais)
Paradoxo
Ocorre paradoxo não apenas na aproximação de palavras de sentido oposto, mas de idéias que se contradizem. É uma verdade enunciada com aparência de mentira.
“O mito é o nada que é tudo.” (Fernando Pessoa)
“Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.” (Camões)
Eufemismo
Ocorre eufemismo quando uma palavra ou expressão é empregada para atenuar uma verdade tida como penosa, desagradável ou chocante.
Gradação
Ocorre gradação quando há uma seqüência de palavras que intensificam uma mesma idéia.
“Dissecou-a, a tal ponto, e com tal arte, que ela,
Rota, baça, nojenta, vil
Sucumbiu....” (Raimundo Correia)
Hipérbole
Ocorre hipérbole quando há exagero de uma idéia, a fim de proporcionar uma imagem emocionante e de impacto.
“Rios te correrão dos olhos, se chorares!”
(Olavo Bilac)
Ironia
Ocorre ironia quando, pelo contexto, pela entonação, pela contradição de termos, sugere-se o contrário do que as palavras ou orações parecem exprimir. A intenção é depreciativa ou sarcástica.
“As moças entrebeijam-se porque não podem morder-se umas às outras. O beijo deles é a evolução da dentada da pré-avó.” (Monteiro Lobato)
“Moça linda, bem tratada, três séculos de família, burra como uma porta: um amor.” ( Mário de Andrade)
Prosopopéia
Ocorre prosopopéia quando se atribui movimento, ação, fala, sentimento, enfim, caracteres próprios de seres animados a seres inanimados ou imaginários.
Também a atribuição de características humanas a seres animados constitui prosopopéia, como este exemplo de Mário Quintana: “O peixinho (...) silencioso e levemente melancólico....”
“... a Lua
tal qual a dona do bordel
pedia a cada estela fria
um brilho de aluguel” (João Bosco & Aldir Blanc)
“... os rios vão carregando as queixas do caminho.”
( Raul Bopp)
“Um frio inteligente (...) percorria o jardim....”
(Clarice Lispector)
Perífrase/Antonomásia
Ocorre perífrase quando se cria um torneio de palavras para expressar algum objeto, acidente geográfico, indivíduo ou situação que não se quer nomear.
Na linguagem coloquial, antonomásia/perífrase é o mesmo que apelido, alcunha ou cognome, cuja origem é um aposto (descritivo, especificativo) do nome próprio.
“Cidade maravilhosa
Cheia de encantos mil
Cidade maravilhosa
Coração do meu Brasil.” (André Filho)
(Rio de Janeiro)
Figuras de palavra
As figuras de palavras consistem no emprego de um termo com sentido diferente daquele convencionalmente empregado, a fim de se conseguir um efeito mais expressivo na comunicação.
Comparação
Ocorre comparação quando se estabelece aproximação entre dois elementos que se identificam, ligados por conectivos comparativos explícitos - feito, assim como, tal, como, tal qual, tal como, qual, que nem - alguns verbos - parecer, assemelhar-se e outros.
“Amou daquela vez como se fosse máquina.
Beijou sua mulher como se fosse lógico.
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas.
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro.
E flutuou no ar como se fosse um príncipe.
E se acabou no chão feito um pacote bêbado.”
(Chico Buarque)
Metáfora
Ocorre metáfora quando um termo substitui outro através de uma relação de semelhança resultante da subjetividade de quem a cria. A metáfora também pode ser entendida como uma comparação abreviada, em que o conectivo não está expresso, mas subentendido.
“O tempo é uma cadeira ao sol, e nada mais.”
(Carlos Drummond de Andrade)
Metonímia
Ocorre metonímia quando há substituição de uma palavra por outra, havendo entre ambas grau de semelhança, relação, proximidade de sentido, ou implicação mútua. Tal substituição realiza-se de inúmeros modos:
O continente pelo conteúdo e vice-versa
Antes de sair, tomamos um cálice de licor.
O conteúdo de um cálice.
A âncara pesada do sal feria.
(O mar.)
A causa pelo efeito e vice-versa
“E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento.”(Vinícius de Morais)
(Com trabalho)
Sou alérgico a cigarro.
(A fumaça.)
O lugar de origem ou de produção pelo produto
Comprei uma garrafa do legítimo porto.
(O vinho da cidade do Porto.)
Ofereceu-me um havana.
(Um charuto produzido em Havana.)
autor pela obra
Ela aprecia ler Jorge Amado.
(A obra de Jorge Amado.)
Compre um Portinari.
(Um quadro do pintor Cândido Portinari.)
O abstrato pelo concreto e vice-versa:
Não devemos contar com o seu coração.
(Sentimento, sensibilidade)
A velhice deve ser respeitada.
(As pessoas idosas.)
O símbolo pela coisa simbolizada:
A coroa foi disputada pelos revolucionários.
(O poder.)
Não te afastes da cruz.
(O cristianismo.)
A matéria pelo produto e vice-versa:
Lento, o bronze soa.
(O sino.)
Joguei duas pratas no chapéu do mendigo.
(Moedas de prata.)
o inventor pelo invento:
Edson ilumina o mundo.
(A energia elétrica.)
A coisa pelo lugar:
Vou à Prefeitura.
(Ao edifício da Prefeitura.)
O instrumento pela pessoa que o utiliza:
Ele é um bom garfo.
( Guloso, glutão)
Sinédoque
Ocorre sinédoque quando há substituição de um tempo por outro, havendo ampliação ou redução do sentido usual da palavra. Encontramos sinédoque nos seguintes casos:
O todo pela parte e vice-versa:
“A cidade inteira viu assombrada, de queixo caído, o pistoleiro sumir de ladrão, fugindo nos cascos de seu cavalo.”
(José Cândido de Carvalho)
( O povo. Parte das patas.)
O singular pelo plural e vice-versa:
O paulista é tímido; o carioca, atrevido.
(Todos os paulistas. Todos os cariocas.)
o indivíduo pela espécie (nome próprio pelo nome comum):
Para os artistas ele foi um mecenas.
(Protetor)
Este homem é um harpagão.
(Avarento)
Catacrese
A catacrese é um tipo especial de metáfora, “é uma espécie de metáfora desgastada, em que já não se sente nenhum vestígio de inovação, de criação individual e pitoresca. É a metáfora tornada hábito lingüístico, já fora do âmbito estilístico” (Othon Moacir Garcia).
Exemplos de catacrese:
folhas de livro pé de mesa
dente de alho braço do rio
céu da boa leito do rio
mão de direção barriga da perna
asas do nariz embarca no trem
língua de fogo miolo da questão. .
Alegoria
A alegoria é uma acumulação de metáforas referindo-se ao mesmo objeto; é uma figura poética que consiste em expressar uma situação global por meio de outra que a evoque e intensifique o seu significado. Na alegoria, todas as palavras estão transladadas para um plano que não lhes é comum e oferecem dois sentidos completos e perfeitos - um referencial e outro metafórico.
“A vida é uma ópera, é uma grande ópera. O tenor e o barítono lutam pelo soprano, em presença do baixo e dos comprimários, quando não são o soprano e o contralto que lutam pelo tenor, em presença do mesmo baixo e dos mesmos comprimários. Há coros numerosos, muitos bailados, e a orquestra é excelente...”
(Machado de Assis)
Figuras de harmonia ( sonoridade)
Chamam-se figuras de som ou de harmonia os efeitos produzidos na linguagem quando imitar sons produzidos por coisas ou seres.
Aliteração
Ocorre aliteração quando há repetição da mesma consoante ou de consoantes similares, geralmente em posição inicial da palavra.
“Toda gente homenageia Januária na janela.” (Chico Buarque)
“Quando essa preta começa a tratar do cabelo
é de se olhar toda a trama da trança e transa do cabelo.”
(Caetano Veloso)
“Chove chuva choverando.” (Oswald de Andrade)
Assonância
Ocorre assonância quando há repetição da mesma vogal ao longo de um verso ou poema.
“Sou Ana, da cama
da cana, fulana, bacana
Sou Ana de Amsterdam.” ( Chico Buarque)
A ponte aponta
e se desponta.
A tontinha tenta
limpar a tinta
ponto por ponto
e pinta por pinta...” (Cecília Meireles)
Paronomásia
Ocorre paronomásia quando há reprodução de sons semelhantes em palavras de significações diversas.
“Berro pelo aterro pelo desterro
berro por seu berro pelo seu erro
quero que você ganhe que você me apanhe
sou o seu bezerro gritando mamãe.” (Caetano Veloso)
Onomatopéia
Ocorre onomatopéia quando uma palavra o conjunto de palavras imita um ruído ou som.
“O silêncio fresco despenca das árvores.
Veio de longe,das planícies altas,
Dos cerrados onde o guaxe passe rápido...
Vvvvvvv... passou.”(Mário de Andrade)
“Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r eterno.”
(Fernando Pessoa)
Onomatopéia é um vocábulo de grande valor expressivo. Quando se trata de emissões sonoras humanas (espanto, alegria, dor etc), os sons onomatopéicos obedecem aos modelos fonológicos de uma língua, embora atinjam, de certa forma, a universalidade, já que estão sempre associados de imagens. Observe os modelos:
Emoções humanas
Iau! = dor
Uau! = alegria
Glup! = espanto
Amph! = desagrado
Ah! Ah! Ah! = gargalhada
Atos humanos
Aaargh = força
Uff = esforço físico

IMPRESSIONISMO (O Ateneu - Raul Pompéia)

Enquanto o simbolista tendia para a subjetividade, à intuição, o realista se preocupava com a realidade, a objetividade; da junção destas técnicas surgiu uma nova estética, que foi sem dúvida nenhuma, responsável direta da transição para o Modernismo. É o Impressionismo, onde os escritores manifestam as impressões que a realidade lhes causa.
A realidade a que os impressionistas se referem têm características realistas, indo em direção a objetividade, porém a impressão que os escritores têm dessa realidade é subjetiva, sendo muitas vezes guiados pela intuição, características do simbolismo. Isto tudo fez com que o Impressionismo tivesse caráter conflitante e ambíguo.
A principal manifestação do Impressionismo foi o revigoramento do nacionalismo, na busca dos aspectos regionais no conto e no romance, tornando-se um pré-modernista. O termo Impressionismo veio da pintura, onde designa o movimento artístico da segunda metade do século XIX, originado na França por Monet, Renoir, dentre outros, o qual se baseava no fenômeno da percepção. Para eles, não era fundamental representar o objeto com detalhes e minúcias, mas sim, reter as impressões imediatas que o objeto causasse na sua alma. O quadro que desencadeou o movimento foi Impresssion, de Monet.
O Impressionismo se caracterizou por ser um estilo fundamentalmente sensorial, no qual a natureza não era vista de forma objetiva e sim, interpretada (o que valia era a verdade do artista). Nele houve a valorização do anacoluto, da metáfora, da comparação e o uso de formas verbais como o gerúndio, o imperfeito do indicativo, o infinitivo precedido pelo "a", e outras, dando a idéia de continuidade da ação (aspecto permansivo). Como o Impressionismo não foi propriamente uma escola, mas sim uma atitude na expressão, suas manifestações surgiram em diversas épocas e, no Brasil, podem ser notadas suas características na obra de autores como: Raul Pompéia (Naturalismo); Euclides da Cunha e Graça Aranha (Pré-Modernismo); e Guimarães Rosa (Modernismo).

Raul Pompéia – O Ateneu
Aproxima-se de Machado de Assis quanto ao caráter memorialista da obra, à finura da observação moral e o pessimismo. Seu estilo é nervoso, com grande carga passional, através de metáforas exageradas, criando verdadeiras caricaturas.
Com o subtítulo “Crônicas de Saudades”, reconstrói, através da memória, a vida de um internato. Sérgio, personagem-narrador, é o próprio Raul Pompéia, que se vinga do colégio, a quem atribuía a responsabilidade pelas deformações de sua personalidade.
A sondagem psicanalítica revela em várias passagens do romance o complexo de Édipo: no afeto do menino Sérgio por D. Ema, mulher de Aristarco, diretor do Ateneu, execrado como pai-tirano; no jogo masculino/feminino;
no homossexualismo, que caracterizam as relações entre os alunos em plena crise de puberdade.
“Vais encontrar o mundo”, disse-me meu pai à porta do Ateneu, “Coragem para a luta”. Começa aí a ruptura com a vida familiar, definida como aconchego placentário, estufa de carinho. O Ateneu é o microcosmo em que se projetam todas as mazelas do mundo. O incêndio do internato significa a recusa selvagem daquela vida adulta que começa no colégio interno, e é a vingança final de Raul Pompéia-Sérgio contra o Ateneu.
O móvel das ações de Aristarco é o dinheiro, e a crítica ao sistema educacional é severa.
Não é possível resumir o romance porque não há propriamente um enredo, mas uma sucessão de episódios
da vida do internato que vão sendo expostos pelo personagem-narrador Sérgio, como “manchas de recordação”.
A classificação de O Ateneu é problemática. Há elementos realistas, naturalistas, impressionistas, expressionistas e simbolistas.
A linguagem tem grande poder de caricatura, o vocabulário é de muita riqueza plástica e sonora: “As mangueiras, como intermináveis serpentes, insinuavam-se pelo chão.”, “As crianças, seguindo em grupos atropelados, como carneiros para a matança.”
Raul Pompéia, aos onze anos, foi matriculado no Colégio do Abílio, recriado artisticamente em O Ateneu. Formou-se em direito. Foi abolicionista, republicano e florianista.
Temperamento hipersensível, com traços homossexuais, suicidou-se com 32 anos de idade.No campo político-social, ampliando o universo, o"Ateneu" pode ser visto como representação da Monarquia e, "Aristarco", como a personificação do governo, sua moral falida como a própria Monarquia decadente. De acordo com esta leitura, o incêndio do colégio representaria a queda da Monarquia.Também são muitas as citações à majestade de "Aristarco", começando por seu nome (áristos = "ótimo"; arqué = "governo"; portanto, o governo dos bons, ou ainda, o bom governo) e passando por seu comportamento.

HUMANISMO EM PORTUGUAL

Início: 1434 - Fernão Lopes é nomeado cronista-mor do Reino.
Término: 1527 - Francisco de Sá de Miranda inicia o Renascimento em Portugal.

Aspectos históricos:

Época conturbada da história portuguesa.
1) Implantação da dinastia de Avis (1383-1385) - revolução popular derruba a dinastia de Borgonha, e assume o novo rei, D. João I, da ordem de Avis. Fim da vassalagem dos reis de Portugal ao rei de Castela.
2) Fim das guerras da independência: consolidação da independência.
3) Desenvolvimento do comércio sobretudo do comércio marítimo.
4) Formação do império colonial português: conquistas na África e a descoberta do Brasil.

No plano da cultura e da literatura:
1) A língua portuguesa firma-se como língua independente. Lembre-se de que nos séculos anteriores falava-se o galego-português.
2) A língua literária escrita desenvolve-se, diferenciando-se da língua falada.
3) A prosa floresce, enquanto a poesia entra em declínio.
4) A corte torna-se o principal centro de produção cultural e literária graças ao fortalecimento da casa real.
5) Declínio das características medievais e prenúncio do Renascimento. Abandono progressivo da mentalidade teocêntrica.

Características do Humanismo
1) Florescimento da prosa; declínio da poesia.
b) Manifestações literárias:
Poesia palaciana
Prosa doutrinária
Historiografia
Teatro de Gil Vicente

Poesia Palaciana
1) Cancioneiro Geral, de Garcia Resende, 1516.
2) Ligada à vida social da corte.
3) Transição entre a tradição medieval e a tradição moderna.
4) Autonomia em relação à música:
métrica
declamadas em salões
surgem os livros, com a invenção da imprensa
os autores se chamam poeta, não são mais trovadores¨
lírica (contradições do amor - influência de Petrarca, poeta italiano)
Historiografia de Fernão Lopes
1418 - guarda-mor da Torre do Tombo (arquivo do Estado)
1434 - cronista-mor, encarregado de escrever oficialmente a história dos reis.
Das crônicas que escreve, só restam três. As demais desapareceram:
a) Crônica de D. Pedro
b) Crônica de D. Fernando
c) Crônica de D. João I (1ª e 2ª partes).

Sucessores de Fernão Lopes:
Gomes Eanes de Zurara - a partir de 1454.
Rui de Pina - a partir de 1497

Características da historiografia de Fernão Lopes
1) Não foi superado por nenhum sucessor.
2) Investigação crítica das fontes.
3) A figura do rei e do herói, centros da história.
4) Apresenta o painel de uma coletividade nacional portuguesa.
5) Considera as causas econômicas dos fatos.
6) Possuem o dinamismo das novelas de cavalaria.

Teatro de Gil Vicente
Mentalidade medieval - ambientado no início da Era Moderna, mas ainda reflete o pensamento medieval.

Características:
1) teatro alegórico -
as barcas são alegorias da morte;

2) teatro de tipos - classe social, profissão, sexo, idade. Exemplos do Auto da Barca do Inferno:

3) Teatros de quadros: sucessão de cenas, chegando a um ponto culminante e desfecho.

4) Rupturas da linearidade do tempo e despreocupação com a verossimilhança: na farsa O Velho da Horta - pela manhã a mocinha procura o velho para comprar os temperos, no final do diálogo, o criado vem avisar-lhe que já é noite.

5) Teatro cômico e satírico. A maioria das peças são comédias de costumes, seguindo o lema latino: “Pelo riso corrigem-se os costumes”. Personagens caricaturais. Sua linguagem faz cócegas na platéia.
Gil Vicente

Com uma biografia das mais controvertidas, poucos fatos são tidos como certos na vida de Gil Vicente. Nascido por volta de 1465. Aproveitou-se do prestígio que a função de organizador das festas da corte lhe conferia para, em 1502, encenar sua primeira peça, o Monólogo do vaqueiro ou Auto da visitação, na câmara da rainha D. Maria, em comemoração ao nascimento de D. João III. Durante trinta e quatro anos Gil Vicente fez representar dezenas de peças. Em 1562, seu filho, Luís Vicente, publicou a Compilagem de toda as obras de Gil Vicente.

Características do teatro vicentino
Escrita em 1517, Auto da Barca do Inferno é das obras mais representativas do teatro vicentino. Como em tantas outras peças, nesta o autor aproveita a temática religiosa como pretexto para a crítica de costumes. Num braço de mar estão ancoradas duas barcas. A primeira, capitaneada pelo diabo, faz a travessia para o inferno; a segunda, chefiada por um anjo, vai para o céu. Uma a uma vão chegando as almas dos mortos - um fidalgo, um onzeneiro (agiota), um parvo (bobo), um sapateiro, um frade, levando sua amante, uma alcoviteira, um judeu, um corregedor (juiz), um procurador (advogado do Estado), um enforcado e quatro Cavaleiros de Cristo (cruzados) que morreram em poder dos mouros. Todos tentam evitar a barca do diabo. Mas apenas o parvo e os cruzados conseguem embarcar para o céu.

Ambientado no início da Era Moderna, o teatro vicentino ainda reflete o pensamento medieval por sua moral religiosa e sua concepção teocêntrica do mundo.

2. Teatro popular
Apesar dos elementos ideológicos inovadores que suas sátiras sociais contêm, Gil Vicente não se deixou influenciar pelas novidades estéticas introduzidas pelo Renascimento. Sua obra é a síntese das tradições medievais e populares.
“... o seu teatro não pode ser jamais entendido se analisado e concebido segundo os padrões de uma estética que não seja a estética do teatro popular”. (Segismundo Spina)”
Vale então fazer uma breve análise da obra de Gil Vicente à luz da estética do teatro popular medieval.

Teatro alegórico: representação de idéias abstratas com personagens, situações e coisas concretas. O Auto da Barca do Inferno, por exemplo, é uma peça alegórica. O cais e as barcas são a alegoria da morte; a barca do inferno é alegoria da condenação da alma; a barca do céu, a da salvação.
Teatro de tipos: as personagens de Gil Vicente são sempre típicas, isto é, não são indíviduos singulares nem possuem traços psicológicos complexos; pelo contrário, apenas reúnem os caracteres mais marcantes de sua classe social, de sua profissão, de seu sexo, de sua idade.
Teatro de quadros: em geral, as peças de Gil Vicente desenvolvem-se por uma sucessão de cenas relativamente independentes, sem formar propriamente um enredo, uma história que, depois de apresentada, se complica até um ponto culminante e um desfecho.
No Auto da Barca do Inferno temos uma introdução em que aparecem o diabo e seu companheiro preparando a barca e anunciando a vigem; com a chegada do fidalgo, inicia-se o primeiro quadro, e os outros se sucedem sempre com a mesma estrutura: chegada da personagem, diálogo com o diabo, tentativa de embarque para o céu e, se a personagem é recusada pelo anjo, retorno à busca do inferno.
Rupturas da linearidade do tempo e despreocupação com a verossimilhança: mesmo nas peças que possuem um enredo, a sucessão cronológica dos acontecimentos é freqüentemente inverossímil ou mesmo absurda.
Na farsa O velho e a horta, um velho hortelão apaixona-se por uma mocinha, pela manhã, o procura para comprar temperos. Ao final do primeiro diálogo, um criado vem avisar-lhe que já é noite e que sua mulher o espera para jantar.
Malsucedido em seus galanteios, o velho apaixonado contrata os serviços de uma alcoviteira, que lhe arranca dinheiro para comprar presentes e empreender a conquista. Numa de suas visitas, a alcoviteira é presa e açoitada. Desconsolado, o velho recebe a notícia do casamento da moça por quem se apaixonara. Tudo isso acontece numa sucessão ininterrupta, marcada apenas pela entrada e saída de personagens, e a única marcação de tempo, como se viu, é inverossímil. Teatro cômico e satírico: as peças de Gil Vicente, em sua maioria, são comédias de costumes, seguindo o lema latino ridendo castigat mores (pelo riso corrigem-se os costumes). O dramaturgo lança mão de inúmeros recursos eficientes para provocar o riso: personagens caricaturais; situações absurdas; desencontros imprevistos e ridículos. Mas é sobretudo o poder de sua linguagem que faz cócegas na platéia.

HUMANISMO

Os últimos séculos medievais foram marcados por crises em todos os aspectos da vida social. Forma-se uma nova concepção de mundo, um novo sentimento de ser humano. O Feudalismo entra em decadência, esgotado por guerras constantes que, aliadas às epidemias, fazem escassear a mão-de-obra rural e a produção agrícola. O poder político se concentra mais nas mãos dos reis, cuja autoridade, até então, se restringia aos limites dos feudos reais.
Fortalecidas, as monarquias afirmavam sua independência em relação à Igreja e já não aceitavam tanto sua intromissão nos assuntos de Estado.
Por outro lado, já desde o século XI a atividade mercantil se reativara e, em torno dela, a cidade, a vida urbana e um novo grupo social: artesãos e burgueses se ocupavam mais com os lucros da vida terrena do que com a recompensa da vida eterna
Nesta nova classe intermediária haviam setores hierarquizados: o patrão e o obreiro, os mestres e os aprendizes. Os mais ricos almejam o prestígio da nobreza, os mais pobres lutam por seus salários. Emerge como novo indicativo de riqueza e poder, ao lado da terra, o dinheiro.
O conhecimento circulava mais agilmente pela cidade; a invenção da Imprensa (Gutemberg - 1450), vem dinamizar definitivamente este processo, tirando da Igreja a posse do acervo cultural: as obras podiam ser reproduzidas em menor tempo e maior quantidade, propiciando a formação de bibliotecas fora dos mosteiros.
Embora o padrão cultural e intelectual ainda seja aquele sinalizado pela nobreza e pelos setores eclesiásticos, é a classe média quem financia a cultura e a vida urbana que fornece seus temas.
Assim, a conformação psicológica do burguês, mais centrada na observação e no raciocínio, assume um papel importante na produção cultural. O "conhecer pela observação" substitui gradativamente o "conhecer pela fé".
Deus lentamente desloca-se do centro da atenção do homem, que começa a prestar atenção em si mesmo. É o movimento humanista que prepara uma definitiva transformação na concepção do mundo: o antropocentrismo que se concretizará nos séculos seguintes.
Esses novos valores, assumidos pelo homem a partir do século XIV, deixarão sua marca na produção artística: na pintura, a figura humana ganha forma, expressão e proporção; a música torna-se polifônica, a arquitetura gótica agoniza. A Literatura oscila entre a preservação de antigos valores e a preparação de um novo homem. Na Literatura Portuguesa o início desse período é marcado pela nomeação de Fernão Lopes como cronista da corte portuguesa e o final com a obra teatral de Gil Vicente. Nestes dois autores percebe-se uma concepção cristã da vida: o primeiro tentando dirigir espiritualmente a aristocracia, o segundo, se apoiando em valores cristãos e medievais. Mas a obra de ambos é mais ampla do que isto.